Raquel Braga
A primeira consideração de Lacan neste texto diz De um discurso que não fosse semblante. Todo discurso é a articulação de um saber com uma verdade e, neste sentido, não existindo A verdade, todo discurso é semblante, ou seja, algo que propõe uma coisa, mas que é outra. Lacan diz de quatro discursos com os quais lidamos mais diretamente, são eles: o discurso do analista, o discurso do mestre, o discurso da histérica e o discurso do universitário, cada qual mantendo relações especificas com o saber e a verdade, ou seja, o discurso e, portanto, todos se ordenam, a partir do semblante.
O discurso freudiano que tem na relação sexual seu principal ponto de apoio é também semblante, ou seja, é uma produção de saber sobre a relação sexual. Ele coloca em causa a relação de alguma coisa que se articula como verdade, em oposição a um semblante. Esta dialética, entre verdade e semblante, é nomeada por Lacan de relação sexual. Foi dos neuróticos, das histéricas e dos obsessivos que partiu o traço que condiciona a linguagem, ou seja, a sexualidade. Freud, então, a partir dessa traço produziu um discurso sobre a sexualidade que ocupou uma noção de verdade em sua enunciação.
O analista fica à escuta de um discurso que não seria discurso do semblante. Neste sentido, tal discurso não existe, pois há um limite imposto ao discurso quando se trata da relação sexual. Freud nos lembra
Feita tal consideração, no final do capitulo VII Freud diz algo que, a meu ver, nos ajuda a entender a enunciação não existe relação sexual: “Esse conflito é posto em ação tão logo os homens se defrontam com a tarefa de viverem juntos. Enquanto a comunidade não assumir outra forma que não seja a da família, o conflito está fadado a se expressar no complexo edipiano, a estabelecer a consciência e a criar o primeiro sentimento de culpa.” (FREUD, 1929, p.135). Sendo assim, na impossibilidade da relação sexual, faz-se civilização.
Pra Lacan, Freud enuncia uma verdade velada, obscura que se enuncia a partir de uma relação sexual que só se sustenta pela composição entre gozo e semblante que se chama castração. O neurótico possui o temor da castração marcadamente acentuado em seu discurso, fazendo com que ele a evite. A castração permanece enigmática, pois, só temos acesso a ela pelo temor do neurótico.
O falo é uma descoberta central, ou redescoberta, sendo este retomado como semblante desvelado nos mistérios, como nos diz Lacan. “Com efeito, é precisamente com o semblante do falo que se relaciona o ponto pivô, o centro de tudo que se pode ordenar e conter do gozo sexual.” (p.158). O que caracteriza o falo, portanto, não é a falta e sim ser aquilo de que não sai nenhuma palavra, ou seja, não remete a nenhuma conotação, ou, nenhum nome que designa, junto com o sujeito, um atributo.
Lacan faz distinção entre sentido e significação Sinn e Bedeutung. O que dá sentido é o Sinn, a conotação em lingüística e, o que mesmo sem dar nenhum sentido, continua a ser a mesma coisa, é o Bedeutung, a denotação, sendo a coisa em si mesma. Toda função emparelhada na linguagem, é uma Bedeutung, e só existe uma die Bedeutung dês Phallus. O falo é um designador rígido, aquilo que indica a coisa em si mesma, sem nenhuma referência, sem nenhum sentido agregado, embora possa ser um Sinn, um sentido, como no exemplo de autor de Waverly e Sir Walter Scot, sendo este último a Bedeutung, o Nome-próprio. Sendo o falo o nome, ele é aquilo que chama e chama a falar, com a vantagem de que podemos chamá-lo loucamente que ele continuará a não dizer nada.
Assim como o autor de Waverly, sendo sentido, substitui uma Bedeutung, Sir Walter Scott, o Nome-do-Pai, é o significante mestre do discurso analista. E o que é um pai? Para a experiência analítica ele é um referencial. A ele se refere alguma coisa. Para Lacan, o mito de Édipo não é um reflexo patriarcal. “Ele nos evidencia por onde a castração poderia ser tomada por uma abordagem lógica, e de um modo que eu designaria como numeral. O pai é não apenas castrado, mas castrado justamente a ponto de ser apenas um numero.” (p.162). Lacan nos lembra que não há apenas o algarismo (número), há um número (nombre). A mãe por sua vez é inumerável, pois não se tem duvidas sobre quem seja a mãe, não há ponto de partida.
Lacan diz também da importância absolutamente necessária do zero a qualquer referencial cronológico natural. “E assim compreenderemos o que significa o assassinato do pai.” (p.164). É curioso, nos diz Lacan, que o assassinato do pai pelo filho deliberadamente, não apareça em lugar algum, nem mesmo no teatro grego. E é justamente por este assassinato que Freud elaborou a reusa da castração em virtude da histérica. Não seria o assassinato do pai um substituto da castração recusada? Se o pai é alguma coisa, ele é a significação do falo, nesse sentido, o assassinato do Pai se relaciona com uma Bedeutung, a do falo e por isso se reduz a zero. Portanto, aquilo que põe do lado do pai o gozo original, não deixa de corresponder uma evitação equivalente da castração. Mas o pai é morto, ele nunca existiu, a não ser enquanto Nome.
Por fim, Lacan nos lembra da segunda tópica freudiana e a importante elaboração do supereu. Ele se origina nesse Pai original, neste apelo ao gozo puro, a não castração. Ao final do Édipo, é esse pai internalizado que dirá ao supereu o que fazer e, tal fazer, estará na ordem do impossível, a qual seja Goze! É justamente por amor que o obstáculo ao gozo se instalará, tornando a relação sexual na ordem do impossível.