Mônica Rahme
Texto: “‘Uma criança é espancada’ – Uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais”, Freud (1919).
A tradução mais apropriada deste texto seria “Bate-se numa criança”, pois não há sujeito na frase original formulada por Freud (em alemão: Ein kind wird geschlagen). Nuance que se perdeu na tradução para o português como “uma criança é espancada”.
Desdobramentos da discussão:
Marcelo ressalta que o ponto principal do texto é a idéia freudiana de que o homem só entra na civilização espancado. Para suportar a cultura, o sujeito humano precisa passar pela experiência masoquista, o que torna a perversão constitutiva do tornar-se humano. Marcelo destaca, ainda, que nesse momento da obra freudiana, os conceitos de masculino e feminino não estão mais atrelados à idéia de homem e mulher, o que permite, por exemplo, a elaboração freudiana de que inconsciente é feminino (passivo), pois diz de uma posição que o sujeito ocupa quando é cuidado e, também, agredido.
O que interessa a Freud é a universalidade da perversão como uma forma constitutiva do sujeito para lidar com a sexualidade. Na origem das perversões está o masoquismo e na transformação da dor em prazer.
O masoquismo está sempre em jogo, ele é primordial pelo cuidado realizado pelo outro, pela forma como o outro entra na vida (no circuito pulsional) do infans. Para vivermos na cultura, portanto, somos imputados pelo sofrimento.
Freud coloca em destaque a relação masoquismo-sadismo. O sádico sabe como o masoquista sofre; há uma identificação com esse sofrimento do outro, o que reafirma a idéia de que há um masoquismo que funciona como condição fundante. Nesse masoquismo constitutivo, há sempre uma reatualização dos fatos que alimentam a vivência masoquista.
No masoquismo primário (masoquismo erógeno), o que é da ordem da dor é transformado em prazer. Desse modo, o que é da ordem de um masoquismo moral atualizaria o masoquismo primordial, constitutivo do sujeito.
O ser espancado como regressão: articulação com o caso do Homem dos lobos (cena primária). Articulação sexualidade – agressividade – masoquismo primordial.
Freud reitera em toda a sua obra sua identidade com a idéia de Adler sobre o “protesto masculino”. Mas não concorda com os desdobramentos da teoria para elucidar o que lhe interessa em torno do masoquismo e que estaria relacionado à formulação de que o recalcável é feminino. A esse propósito, argumenta Freud (Standart, p. 251-2):
“A teoria do protesto masculino parece manter muito melhor o seu fundamento ao ser testada em relação às fantasias de espancamento. Tanto no caso de meninos como de meninas, a fantasia de espancamento corresponde a uma atitude feminina – isto é, uma atitude na qual o indivíduo se demora na ‘ linha feminina’ – e ambos os sexos apressam-se em libertar-se dessa atitude, reprimindo a fantasia. Não obstante, parece que apenas na menina o protesto masculino está ligado a um êxito completo, e nesse caso, de fato, poder-se-ia encontrar um exemplo ideal da operação do protesto masculino. Com o menino, o resultado não é inteiramente satisfatório; a linha feminina não é abandonada, e o menino não é certamente ‘bem sucedido’ na sua fantasia masoquista consciente. Concordaria, portanto, com as expectativas que nascem da teoria, se reconhecêssemos que essa fantasia era um sintoma que passara a existir pelo fracasso do protesto masculino. É naturalmente perturbador o fato de que a fantasia da menina, que deve a sua origem às forças da repressão, tenha também o valor e o significado de um sintoma. Nesse exemplo, onde o protesto masculino atingiu plenamente o seu objetivo, deve estar certamente ausente a condição que determina a formação de um sintoma.”
O complexo de Édipo é a referência de Freud para pensar nos dois crimes fundamentais da humanidade: o parricídio e o incesto.
A ordem fálica é uma resposta freudiana para a ruptura que ele declara existir em relação aos sexos. Nesse sentido, podemos indicar que o binarismo menino-menina representa os elementos que Freud tinha, na sua época, para teorizar a questão da sexuação. Freud iguala inicialmente meninos e meninas para, em um segundo momento, abordar o que seria específico a cada um dos sexos.
No caso da menina, o complexo de castração significaria, assim, uma “abertura” do Édipo, enquanto para o menino esse complexo indicaria um “fechamento” do Édipo.
Se o falo é uma resposta do homem ao horror diante do feminino, a falicização da mulher também viria como uma resposta frente a esse mesmo horror.
Indicações de leitura complementar dos seguintes textos de Freud: “A repressão”, “O inconsciente”, “Conferências introdutórias”, “Neurose e psicose”, “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”.
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