sábado, 25 de abril de 2009

Reflexões sobre "Psicologia de Grupo e Análise do Ego (1921)"

Gustavo Martins
Em primeiro lugar, parto da suposição de que a escola pode ser considerada como um Grupo Artificial. Na definição de Freud, este tipo de grupo é extremamente duradouro e organizado, o que o difere das massas e grupos menores, de caráter transitório.

Em um grupo artificial, prevalece a “ilusão de que há um cabeça (...) que ama todos os indivíduos do grupo de forma igual” (p.105). Além disso, “cada indivíduo está ligado por laços libidinais por um lado ao líder (...) e por outro aos demais membros do grupo” (p.107). Freud considera que há nos grupos artificiais uma “remodelação idealística do estado de coisas da horda primeva” (p.135), lembrando que “o pai primevo é o ideal do grupo, que dirige o ego no lugar do ideal do ego”(p.138).

Embora Freud tenha dedicado o texto ao estudo de grupos com líder, não deixou de salientar o interesse de pesquisar a existência de outros em que não o tenha e se, nestes casos, “uma idéia, uma abstração, não pode tomar lugar do líder (...) e se uma tendência comum, um desejo, em que certo número de pessoas tenha uma parte, não poderá, da mesma maneira, servir de sucedâneo” (p.111).

Questiono, em primeiro lugar, se na escola tal substituto fundamental do líder não seria o conhecimento, ou, em sentido mais amplo, a educação. Em segundo lugar, este líder abstrato não se corporifica nos professores? Aqueles que, detentores do conhecimento, também o são do poder? Os mestres que, portanto, situam-se – mesmo que de maneira limitada – como um pai primevo? Ocupariam eles o lugar de quem interdita, por um lado, mas que ama igualmente os alunos-filhos, por outro? Não seriam, pois, os professores, os objetos postos como ideal do ego?

Se pudermos admitir alguma coerência nesta idéia, outras questões incidirão sobre o funcionamento de certos grupos em escolas que acompanho no dia a dia. Em linhas gerais, presencio em escolas públicas um mal-estar que aparece nos discursos de professores e alunos. De um lado, a desmotivação, queixa quanto condições de trabalho, falta de capacitação e dificuldade em lidar com os alunos e as ‘realidades’ que trazem. De outro, a recusa pelo ambiente escolar proposto (ou imposto?) que se desdobra no não aprendizado, transgressão, evasão, etc.

Outras questões: - A educação, ou conhecimento, líder abstrato do grupo, deixou de existir ou cedeu o lugar para outro ideal? - a corporificação do ideal do ego – professor – não consegue mais sustentar esta posição? - Como se dão as trocas libidinais que outrora se configurariam na fórmula: saber e poder do professor que ama os alunos e os une neste amor? – Onde os alunos encontram laços identificatórios mais interessantes, tanto no que diz respeito a um líder quanto em relação aos pares do grupo?

Devo admitir, obviamente, que minhas respostas são um tanto quanto limitadas e transitórias. No entanto, o próprio texto de Freud oferece alguns elementos que contribuem para a reflexão.
“Cada indivíduo, portanto, partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça, classe, credo, nacionalidade – podendo também elevar-se sobre elas, na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. Essas formações grupais estáveis e duradouras, com seus efeitos constantes e uniformes, são menos notáveis para um observador que os grupos rapidamente formados e transitórios” (p.139).

Na sociedade contemporânea, são intermináveis as possibilidades de transitar por uma pluralidade de grupos efêmeros – ainda que o sujeito se mantenha identificado em grupos mais duradouros. Contudo, como ressalta Freud, “é exatamente nesses ruidosos grupos efêmeros, superpostos uns aos outros, por assim dizer, que encontramos o prodígio do desaparecimento completo, embora apenas temporário, exatamente daquilo que identificamos como aquisições individuais. Interpretamos esse prodígio com a significação de que o indivíduo abandona seu ideal do ego e o substitui pelo ideal do grupo, tal como é corporificado no líder” (p.139).

Poderíamos pensar aqui que grupos transitórios vêm substituindo a escola como modelo identificatório? Os subgrupos que surgem dentro e fora das escolas seriam mais atrativos e ofereceriam outro tipo de apaziguamento para os conflitos do ego que o ideal da escola não consegue sustentar e ao qual não dá conta de se opor?

Ora, Freud diz que “o ideal do ego abrange a soma de todas as limitações a que o ego deve aquiescer e, por essa razão, a revogação do ideal constituiria necessariamente um magnífico festival para o ego, que mais uma vez poderia então sentir-se satisfeito consigo próprio” (p.141).

Assim como Freud reconhece ter “injustamente enfatizado a relação com o líder e mantido demais em segundo plano o outro fator da sugestão mútua”, restarão ainda questões a se pensar acerca dos laços identificatórios entre os membros do grupo escolar.
REFERÊNCIA:
FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921). Rio de Janeiro: Imago, 1996. P.79 – 154.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Reflexões sobre "Psicologia de Grupo e Análise do Ego (1921)"

Por: Raquel Braga

É interessante começar considerando que este texto foi escrito por Freud em 1921, época do pós Primeira Guerra Mundial em que a necessidade de líderes, salvadores da pátria era iminente. Nesse texto, Freud se concentra, basicamente, na teoria do eu e da identificação. Nessa época Freud já havia escrito copiosa literatura sobre a disciplina que ele fundara sobre o nome psicanálise. Havia também a existência de um grupo de diferentes intelectuais que se reuniam na casa dele para discutir assuntos relacionados com ao tema. Esse grupo teve inicio em 1902 e, em 1910, foi transferido da casa de Freud para o Colégio de Doutores. De 1902 até 1906 não há registro das primeiras atas, somente as que foram realizadas depois disso. Acredito que a existência desse grupo tenha influenciado de alguma forma os escritos de Freud sobre o texto em questão dada as peculiares dificuldades encontradas por ele e pelos membros que o constituía, especialmente no que tange aos assuntos relacionados com a teoria, a técnica da psicanálise e o ego dos envolvidos.

Quais seriam as causas da diferença entre os indivíduos em grupo e os indivíduos tomados isoladamente? De onde vem esse poder que os grupos têm de sugestionar os indivíduos, de fazer com que se identifiquem e que reajam de maneira diferente da que se estivessem sozinhos? Viria do líder, que é colocado no lugar de ideal do ego? E aqueles que não se identificam? Por que isso acontece? Há um instinto social? Uma identificação com a ‘mente’ de certos povos primitivos? É necessário ressaltar que o tipo de identificação primordial que Freud nos coloca e que depois retoma em 1923, diz de uma identificação por parte dos meninos, com o pai da pré-história, é essa a primeira identificação, é a primordial. Mas e nos casos das meninas, com quem elas se identificam? Essa pergunta nos é deixada por Freud sem resposta. Podemos pensar em algo? Freud nos coloca essas questões ao longo de seu texto e, na medida do possível, tenta responde-las.

Macdougall sugere ‘o principio da indução direta da emoção por via da reação simpática primitiva’, é como se houvesse uma espécie de contágio do individuo pelo grupo e quanto maior e mais intensa é essa reação grupal, mais ela contagia o individuo. Podemos observar isso nas salas de aula? Qual a influencia que o grupo de alunos tem em cada um, separadamente e em relação ao professor? Por que o contágio não se verifica em todo o grupo, por que há formas de ‘resistência’?

Freud retorna várias vezes no texto, a especial sugestionabilidade dos grupos, pois, se há prestigio no grupo, seja por parte de um líder ou por parte de seus componentes ele existe somente devido a sua capacidade de evocar a sugestão. Há alguma forma de evocar sugestão em um grupo que seja mais eficiente que outras? Em sala de aula, por exemplo, como usar dessa especial sugestionabilidade para ‘contagiar’ os alunos? E por que eles permitiriam ser sugestionados? Por estarem unidos por laços libidinais? Por estarem submetido a uma suposta autoridade? Qual seria então, a natureza do laço libidinal que uni os estudantes ao professor? Há alternativa possível?

“O homem é um animal de horda, uma criatura individual numa horda conduzida por um chefe.” Freud utiliza desse argumento e diz ser a psicologia social tão antiga quanto à psicologia individual, porque desde o principio, houve dois tipos de psicologia, a dos membros individuais do grupo e a do pai, chefe ou líder. “O pai primevo ao impedir os filhos de satisfazer seus impulsos diretamente sexuais, os forçará por assim dizer, à psicologia de grupo. Seu ciúmes e intolerância sexual tornaram-se em ultima analise, as causas da psicologia de grupo.”

Podemos então pensar, que é a desigualdade dos privilégios entre membros do grupo e o líder que leva a um desentendimento das partes? “Você é aluno e eu sou professor e, por isso você deve me respeitar”, parece ser frases constantes em sala. Há alternativa para um melhor entendimento? Por onde ela teria que passar? Como trabalhar essa ‘desigualdade’ dentro de sala de aula? Como legitimar esse lugar sem ocupá-lo? O que os grupos reivindicam seria o acesso a um ideal que o líder parece ter posse, no entanto, o que me parece é que esse ideal já não é mais tão cobiçado pelos alunos e se o é, as formas de demonstrar isso mudaram. Há explicação para até hoje nós, seres humanos, desejarmos ser governados, como se tivesse paixão pela autoridade? Que autoridade é essa? Seria uma espécie de substituto dos primeiros objetos de identificação ou uma nostalgia do tempo em que o eu e o objeto eram um só? Quais outras formas de relações são possíveis? Há como dessexualizá-la e mesmo assim mantê-la?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ata de encontro

Dia 26/03/2009 - das 16h às 18h Sala 03 da Pós-Graduação, FaE/UFMG

“PSICOLOGIA DE GRUPO E ANÁLISE DO EGO", obras completas de Sigmund Freud, VOL. XVIII, 1921

Resumo:
A coordenação do encontro ficou por conta de Marcelo Ricardo Pereira e o registro por responsabilidade de Márcio Boaventura Jr. Em um primeiro momento foi solicitada uma apresentação dos membros presentes, uma vez que reiniciada as atividades do Panóptico em 2009 o grupo de estudo aumentou relativamente.

Em seguida, o coordenador apresentou o histórico do Grupo Panóptico, bem como sua finalidade e objetivada neste novo ciclo, qual seja, estudar a obra Freudiana relativa ao vínculo social, bem como as contribuições lacanianas à mesma.

O início dos estudos deu-se com Marcelo Ricardo trazendo elementos como:
- Acentuar a preocupação/tese de Freud ao escrever o texto (1921).
- Europa devastada pela 1ª Guerra Mundial
- Esse cenário instiga o surgimento de “salvadores da pátria”, fortalece grupos, etc.
- o texto freudiano estudado aborda a questão social e o comportamento humano.
- o que aconteceu com a Europa civilizada que em seu ápice do progresso humano sucumbe a guerra. Tem algo no humano que fustiga isso?
- Como se formam os grupos (teses)?
- Declínio da religião e da ciência (uma vez que ambas não foram capazes de salvar a humanidade de seu destino). Período de desilusão com o mundo moderno.

Capítulo 1
Psicologia Social e psicologia Individual
A segunda emerge da primeira
- instinto gregário ou de grupo.

Capítulo 2
Lebon
Capítulo 3
Grupos organizados
Quais as razões para ele acontecer.

Capítulo 4
Introduz sugestão e libido
Sugestão = enigma, entendendo-a pela libido.
Tentativa de tirar a psicanálise do pansexualismo
Amor e linguagem.

Capítulo 5
Dissolução da idéia de líder materializado.
Pânico: no desampara quando o líder não se apresenta.

Capítulo 6
A simples união de pessoas não faz grupo, é preciso ato!
Amor homossexual inibido em sua sexualidade.
Homogeneidade leva à pulsão de morte.

Capítulo 7
Identificação
Laço extremamente remoto, parcial, limitado e dependente do traço do outro.
Édipo, regressão (escolha de objeto) e contágio.
Ideal de eu a partir do signo do outro, ao fazer isso nos dividimos e criamos um tirano que nos vigia.

Capítulo 8
Estar amando e hipnose
Grupo = hipnose
Estar amando é um excesso de sexualização
Grupo ocorre sublimação da sexualidade

Capítulo 9
Põe em questão a fórmula anterior
Não existe instinto gregário, precisamos ser lembrados diariamente do pacto social.

Capítulo 10
Horda primeva para reforçar o grupo
Hipnose é uma atualização da horda
Abandonar a idéia do Eu x genealidade do líder

Debates:
A violência é algo da classe social?
O que a mídia produz dá forma ao meu pensa?
Não é o crime que me intedita e sim a própria linguagem.
Interditar o fazer e permitir o dizer.
Onde se orientar em um mundo não inteditado?

Esgotado o tempo do encontro, ficou decidido que o próximo se dará no dia 23/04/2009, no mesmo local e horário. Raquel e Gustavo produziram reflexões em forma de texto para aquecer o próximo debate, ainda sobre o mesmo tema.Sem mais a registrar. Encontro encerrado.