Gustavo Martins
Em primeiro lugar, parto da suposição de que a escola pode ser considerada como um Grupo Artificial. Na definição de Freud, este tipo de grupo é extremamente duradouro e organizado, o que o difere das massas e grupos menores, de caráter transitório.
Em um grupo artificial, prevalece a “ilusão de que há um cabeça (...) que ama todos os indivíduos do grupo de forma igual” (p.105). Além disso, “cada indivíduo está ligado por laços libidinais por um lado ao líder (...) e por outro aos demais membros do grupo” (p.107). Freud considera que há nos grupos artificiais uma “remodelação idealística do estado de coisas da horda primeva” (p.135), lembrando que “o pai primevo é o ideal do grupo, que dirige o ego no lugar do ideal do ego”(p.138).
Embora Freud tenha dedicado o texto ao estudo de grupos com líder, não deixou de salientar o interesse de pesquisar a existência de outros em que não o tenha e se, nestes casos, “uma idéia, uma abstração, não pode tomar lugar do líder (...) e se uma tendência comum, um desejo, em que certo número de pessoas tenha uma parte, não poderá, da mesma maneira, servir de sucedâneo” (p.111).
Questiono, em primeiro lugar, se na escola tal substituto fundamental do líder não seria o conhecimento, ou, em sentido mais amplo, a educação. Em segundo lugar, este líder abstrato não se corporifica nos professores? Aqueles que, detentores do conhecimento, também o são do poder? Os mestres que, portanto, situam-se – mesmo que de maneira limitada – como um pai primevo? Ocupariam eles o lugar de quem interdita, por um lado, mas que ama igualmente os alunos-filhos, por outro? Não seriam, pois, os professores, os objetos postos como ideal do ego?
Se pudermos admitir alguma coerência nesta idéia, outras questões incidirão sobre o funcionamento de certos grupos em escolas que acompanho no dia a dia. Em linhas gerais, presencio em escolas públicas um mal-estar que aparece nos discursos de professores e alunos. De um lado, a desmotivação, queixa quanto condições de trabalho, falta de capacitação e dificuldade em lidar com os alunos e as ‘realidades’ que trazem. De outro, a recusa pelo ambiente escolar proposto (ou imposto?) que se desdobra no não aprendizado, transgressão, evasão, etc.
Outras questões: - A educação, ou conhecimento, líder abstrato do grupo, deixou de existir ou cedeu o lugar para outro ideal? - a corporificação do ideal do ego – professor – não consegue mais sustentar esta posição? - Como se dão as trocas libidinais que outrora se configurariam na fórmula: saber e poder do professor que ama os alunos e os une neste amor? – Onde os alunos encontram laços identificatórios mais interessantes, tanto no que diz respeito a um líder quanto em relação aos pares do grupo?
Devo admitir, obviamente, que minhas respostas são um tanto quanto limitadas e transitórias. No entanto, o próprio texto de Freud oferece alguns elementos que contribuem para a reflexão.
“Cada indivíduo, portanto, partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça, classe, credo, nacionalidade – podendo também elevar-se sobre elas, na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. Essas formações grupais estáveis e duradouras, com seus efeitos constantes e uniformes, são menos notáveis para um observador que os grupos rapidamente formados e transitórios” (p.139).
Na sociedade contemporânea, são intermináveis as possibilidades de transitar por uma pluralidade de grupos efêmeros – ainda que o sujeito se mantenha identificado em grupos mais duradouros. Contudo, como ressalta Freud, “é exatamente nesses ruidosos grupos efêmeros, superpostos uns aos outros, por assim dizer, que encontramos o prodígio do desaparecimento completo, embora apenas temporário, exatamente daquilo que identificamos como aquisições individuais. Interpretamos esse prodígio com a significação de que o indivíduo abandona seu ideal do ego e o substitui pelo ideal do grupo, tal como é corporificado no líder” (p.139).
Poderíamos pensar aqui que grupos transitórios vêm substituindo a escola como modelo identificatório? Os subgrupos que surgem dentro e fora das escolas seriam mais atrativos e ofereceriam outro tipo de apaziguamento para os conflitos do ego que o ideal da escola não consegue sustentar e ao qual não dá conta de se opor?
Ora, Freud diz que “o ideal do ego abrange a soma de todas as limitações a que o ego deve aquiescer e, por essa razão, a revogação do ideal constituiria necessariamente um magnífico festival para o ego, que mais uma vez poderia então sentir-se satisfeito consigo próprio” (p.141).
Assim como Freud reconhece ter “injustamente enfatizado a relação com o líder e mantido demais em segundo plano o outro fator da sugestão mútua”, restarão ainda questões a se pensar acerca dos laços identificatórios entre os membros do grupo escolar.
REFERÊNCIA:
FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921). Rio de Janeiro: Imago, 1996. P.79 – 154.
FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921). Rio de Janeiro: Imago, 1996. P.79 – 154.
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