quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Reflexões sobre os Nomes-do-Pai

Raquel de Paula Faria
Lacan ao introduzir o conceito e a discussão sobre o Nome-do-Pai certamente dava seqüência às metáforas freudianas de: o lugar do Pai, retratado em Totem e Tabu (1913) e do Complexo de Édipo, representados resumidamente pela idéia da entrada do indivíduo na cultura através da substituição do desejo (materno) pela incorporação de regras e leis ( pai) que demarcaram a constituição civilizatória. Episódio que sucedeu ao mito originário- o parricídio, retratado em Freud.
É a partir dessa idéia de vigilância pulsional aliada ao lugar vazio do Pai ( que se ausentou do lugar de presença para inscrever-se no campo simbólico) que Lacan irá retomar as discussões iniciadas por Freud desenvolvendo a idéia de “Nome-do-Pai” como sendo o sustentador de uma ordem simbólica e portadora da interdição. O pai não precisa necessariamente existir de forma real, porque está morto, é um lugar vazio; mas qualquer instância ou qualquer outra forma de representação que, por algum motivo exerça alguma forma de interdição adquire simbolicamente e, temporariamente esse lugar de pai, de Nome-do-Pai. (pois a ocupação desse lugar não se sustenta por muito tempo) É por isso que Lacan abordará a expressão “Nomes-do Pai”, no plural. Por ser um lugar vazio, um nome vazio, qualquer um pode ocupá-lo, não possuindo portanto um nome próprio.
“O Nome-do-Pai multiplica-se em tantos nomes quantos forem os suportes de sua função, tornando-se ao mesmo tempo, por causa de sua própria multiplicidade, um artifício, algo que ninguém pode usar sem toma-lo por aquilo que ele não é, sem toma-lo por um elemento de coesão da ordem simbólica que não existe” (ZENONI, Alfredo. p.08. 2007)
As Leis da Igreja na Idade Média, o poder do Estado, a política, a tradição familiar, o trabalho que faz a mãe ausentar-se da companhia de seu filho ou de entes queridos, o ideal de imagem fruto de uma sociedade imagética contemporânea são umas das várias instâncias que desde os primórdios da civilização ocuparam e vêem ocupando esse lugar de Nome-do-Pai- interventor. O que hoje vemos é uma queda, uma desmoralização desses Nomes-do-Pai. Mas o que aconteceu com essas instâncias que antes nos pareciam mais soberana? O que aconteceu com esses Nomes-do-Pai que hoje nos parece tão enfraquecido, visto que o poder da família e o poder da Igreja não são mais aos mesmos, o Estado não é mais o mesmo e nem outras instâncias exercem mais esse papel de autoridade influente e digna de ser respeitada? Por que nos deparamos com um enfraquecimento desses nomes? Por que os Nomes-do-Pai não sustentam mais?
Cabe-nos pensar que tais respostas podem refletir a realidade de uma sociedade atual que vive um episódio de revelação, revelação de que esses Nomes-do-Pai já não se fazem mais suficientes para preencher, sob uma carapuça da lei, a falta do indivíduo. Devido a tal incompletude do Nome-do –Pai (que sempre se fez incompleto, mas agora revelado) podemos inferir que a sociedade tende a cada vez mais a produzir sintomas se rendendo principalmente ao gozo e ao espetáculo. A promessa de um ideal de casamento eterno não satisfaz mais, então opta-se por relacionamentos descompromissados , ou até a falta deles, visto que não temos mais o dever de “ser para sempre” e estar na companhia de alguém. O ser aceito em um padrão hegemônico social não sustenta mais, então procuramos grupos identificatórios minoritários que nos compensem. Assumir o papel de adulto responsável e cheio de compromissos não satisfaz mais, então cabe a alguns a adolescentização, ou seja adultos adquirindo cada vez mais uma postura juvenil. A própria imagem não satisfaz mais, então buscamos o silicone para ficar do jeito que se acha desejável, a plástica para retardar o envelhecimento, a Bulimia para se chegar ao peso ideal, a alienação para suportar o tédio e outras formas que almejam algum tipo de gozo.
Uma pergunta muito importante diante de tais afirmações poderia ser feita. Por que esses Nomes-do-Pai não sustentam mais? Será que antes eles satisfaziam e agora não satisfazem mais? Certamente a resposta para todas essas perguntas se refletiria numa enfática e inevitável expressão: “nostalgia errônea”. Essas instâncias sempre se fizeram presentes, o que aconteceu é que hoje não nos satisfazemos mais com essas imagens de Lei, perdemos o referencial diante da revelação de falta e incompletude desse simbólico que ocupa o Lugar sob o nome de um Pai. Agora cabe-nos perguntar, então o que nos aconteceu para que esses Nomes-do-Pai se fizessem revelados em sua insuficiência?
Há quem diga que os primeiros passos que repercutiram na revelação dessa insuficiência do Nome-do-Pai vieram com a instauração da República na França, século XVIII. O surgimento da República (que vem do Latim res publica- coisa pública) e os ideais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade ao mesmo tempo que procuraram expressar o sentimento de conjunto e as aspirações de um grupo diante da afirmação de igualdade para todos também nos trouxe a revelação (talvez discreta e até inconsciente) desse enfraquecimento do lugar de Pai que se faz acima e intervém em toda uma Ordem. Podemos pensar que, a partir do momento que se instaurou a idéia de que podemos ser iguais e livres consequentemente a supremacia desse Nome-de-Pai passou a ser dividida e questionada. Dividida porque a partir daí tivemos uma multiplicação de instituições que se fizeram valer de Nomes-do-Pai e, questionada no sentido de que a existência de um lugar de Pai que intervém não condiz com o discurso de igualdade republicano.
Certamente esse não foi o único motivo, tivemos e temos muitos motivos que influenciaram e influenciam nessa revelação do enfraquecimento do Nome-do-Pai. Mas essas são perguntas dignas ainda de muita reflexão...
LACAN, Jacques. Introdução aos Nomes-do-Pai. In: O seminário. Livro XVII.
FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. Volume XIII. Edição Standart Brasileira
_____________. O Mal Estar na Civilização. Volume XXI. Edição Standart Brasileira
Zenoni, Alfredo. Versões do Pai na Psicanálise Lacaniana: o percurso do ensinamento de Lacan sobre a questão do Pai. Psicologia em Revista. V.13. n.01. Belo Horizonte. 2007

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