quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Os nomes-do-pai, reflexões em Freud e Lacan

Bárbara Oliveira

Em seu último seminário após a expulsão da IPA (1963) Lacan trata de um representante da representação – o(s) nome(s) do pai. Ele começa por nos trazer o tema da angústia, no qual o sujeito é afetado pelo desejo do Outro, e afetado de maneira imediata, não dialetizável. A angústia não é para Lacan sem objeto, seu objeto é o pequeno a, que cai do sujeito. Esse mesmo objeto, colocado como causa do desejo, nos remete a falta. É necessária a falta para que se dê o desejo, e ainda necessária para que se dê a sociedade, a civilização só pode se formar a partir dela, a partir de um lugar vazio.

É, portanto, a falta a criadora da ordem fraterna, uma vez que só nos reconhecemos enquanto iguais por meio dela, na precariedade. Se esse objeto, representante da falta, cai então do sujeito na angústia, seria assim a angústia para o autor uma falta da falta.
Lacan ainda nos diz que esse objeto que cai assume variadas formas, formas essas que estão relacionadas com o modo sob qual o desejo do Outro é apreendido, e é nessa relação onde surge o objeto que o sujeito acredita visado pelo seu desejo. Ao falar da estrutura da relação entre angústia e desejo, relação do sujeito com o objeto que lhe cai, ele retorna a Freud e à questão da ilusão. Enquanto para Freud a ilusão se situava no tema da religião, para Lacan ela se referiria mais propriamente a Igreja.
Seja na Igreja ou na religião Freud já nos mostra, tanto em suas elaborações sobre o Édipo, como em Moisés, ou em Totem e Tabu, como deus se transpõe para o lugar de pai. O pai de Totem e Tabu, o primeiro pai, é anterior ao surgimento da Lei, da cultura, que só se pode se instituir a partir da significação da morte deste. Como nos diz Lacan lei e desejo se conjugam, necessitam um do outro dentro da lei do incesto, Lei e desejo nascem juntos da suposição do gozo puro do pai como primordial.
Seriam assim não só o totem do mito freudiano, mas nossos totens, efêmeros, de hoje, ou mesmo o discurso, uma das formas do nomes-do-pai? Se o lugar do pai é a priori vazio, lugar da falta, a falta do(s) nome(s)-do-pai, tão discutida hoje, seria causa de nossa angústia? E ainda, como poderíamos pensar o gozo em sua relação com a instituição e a transgressão da lei?

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