Por: Raquel Braga
É interessante começar considerando que este texto foi escrito por Freud em 1921, época do pós Primeira Guerra Mundial em que a necessidade de líderes, salvadores da pátria era iminente. Nesse texto, Freud se concentra, basicamente, na teoria do eu e da identificação. Nessa época Freud já havia escrito copiosa literatura sobre a disciplina que ele fundara sobre o nome psicanálise. Havia também a existência de um grupo de diferentes intelectuais que se reuniam na casa dele para discutir assuntos relacionados com ao tema. Esse grupo teve inicio em 1902 e, em 1910, foi transferido da casa de Freud para o Colégio de Doutores. De 1902 até 1906 não há registro das primeiras atas, somente as que foram realizadas depois disso. Acredito que a existência desse grupo tenha influenciado de alguma forma os escritos de Freud sobre o texto em questão dada as peculiares dificuldades encontradas por ele e pelos membros que o constituía, especialmente no que tange aos assuntos relacionados com a teoria, a técnica da psicanálise e o ego dos envolvidos.
Quais seriam as causas da diferença entre os indivíduos em grupo e os indivíduos tomados isoladamente? De onde vem esse poder que os grupos têm de sugestionar os indivíduos, de fazer com que se identifiquem e que reajam de maneira diferente da que se estivessem sozinhos? Viria do líder, que é colocado no lugar de ideal do ego? E aqueles que não se identificam? Por que isso acontece? Há um instinto social? Uma identificação com a ‘mente’ de certos povos primitivos? É necessário ressaltar que o tipo de identificação primordial que Freud nos coloca e que depois retoma em 1923, diz de uma identificação por parte dos meninos, com o pai da pré-história, é essa a primeira identificação, é a primordial. Mas e nos casos das meninas, com quem elas se identificam? Essa pergunta nos é deixada por Freud sem resposta. Podemos pensar em algo? Freud nos coloca essas questões ao longo de seu texto e, na medida do possível, tenta responde-las.
Macdougall sugere ‘o principio da indução direta da emoção por via da reação simpática primitiva’, é como se houvesse uma espécie de contágio do individuo pelo grupo e quanto maior e mais intensa é essa reação grupal, mais ela contagia o individuo. Podemos observar isso nas salas de aula? Qual a influencia que o grupo de alunos tem em cada um, separadamente e em relação ao professor? Por que o contágio não se verifica em todo o grupo, por que há formas de ‘resistência’?
Freud retorna várias vezes no texto, a especial sugestionabilidade dos grupos, pois, se há prestigio no grupo, seja por parte de um líder ou por parte de seus componentes ele existe somente devido a sua capacidade de evocar a sugestão. Há alguma forma de evocar sugestão em um grupo que seja mais eficiente que outras? Em sala de aula, por exemplo, como usar dessa especial sugestionabilidade para ‘contagiar’ os alunos? E por que eles permitiriam ser sugestionados? Por estarem unidos por laços libidinais? Por estarem submetido a uma suposta autoridade? Qual seria então, a natureza do laço libidinal que uni os estudantes ao professor? Há alternativa possível?
“O homem é um animal de horda, uma criatura individual numa horda conduzida por um chefe.” Freud utiliza desse argumento e diz ser a psicologia social tão antiga quanto à psicologia individual, porque desde o principio, houve dois tipos de psicologia, a dos membros individuais do grupo e a do pai, chefe ou líder. “O pai primevo ao impedir os filhos de satisfazer seus impulsos diretamente sexuais, os forçará por assim dizer, à psicologia de grupo. Seu ciúmes e intolerância sexual tornaram-se em ultima analise, as causas da psicologia de grupo.”
Podemos então pensar, que é a desigualdade dos privilégios entre membros do grupo e o líder que leva a um desentendimento das partes? “Você é aluno e eu sou professor e, por isso você deve me respeitar”, parece ser frases constantes em sala. Há alternativa para um melhor entendimento? Por onde ela teria que passar? Como trabalhar essa ‘desigualdade’ dentro de sala de aula? Como legitimar esse lugar sem ocupá-lo? O que os grupos reivindicam seria o acesso a um ideal que o líder parece ter posse, no entanto, o que me parece é que esse ideal já não é mais tão cobiçado pelos alunos e se o é, as formas de demonstrar isso mudaram. Há explicação para até hoje nós, seres humanos, desejarmos ser governados, como se tivesse paixão pela autoridade? Que autoridade é essa? Seria uma espécie de substituto dos primeiros objetos de identificação ou uma nostalgia do tempo em que o eu e o objeto eram um só? Quais outras formas de relações são possíveis? Há como dessexualizá-la e mesmo assim mantê-la?
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