quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Comentários do texto de Jaqcues Lacan

Do mito forjado por Freud”

Raquel Braga

A primeira consideração de Lacan neste texto diz De um discurso que não fosse semblante. Todo discurso é a articulação de um saber com uma verdade e, neste sentido, não existindo A verdade, todo discurso é semblante, ou seja, algo que propõe uma coisa, mas que é outra. Lacan diz de quatro discursos com os quais lidamos mais diretamente, são eles: o discurso do analista, o discurso do mestre, o discurso da histérica e o discurso do universitário, cada qual mantendo relações especificas com o saber e a verdade, ou seja, o discurso e, portanto, todos se ordenam, a partir do semblante.

O discurso freudiano que tem na relação sexual seu principal ponto de apoio é também semblante, ou seja, é uma produção de saber sobre a relação sexual. Ele coloca em causa a relação de alguma coisa que se articula como verdade, em oposição a um semblante. Esta dialética, entre verdade e semblante, é nomeada por Lacan de relação sexual. Foi dos neuróticos, das histéricas e dos obsessivos que partiu o traço que condiciona a linguagem, ou seja, a sexualidade. Freud, então, a partir dessa traço produziu um discurso sobre a sexualidade que ocupou uma noção de verdade em sua enunciação.

O analista fica à escuta de um discurso que não seria discurso do semblante. Neste sentido, tal discurso não existe, pois há um limite imposto ao discurso quando se trata da relação sexual. Freud nos lembra em O Mal-estar na civilização que a civilização obedecendo a um impulso erótico interno levou os seres humanos a se unirem a um grupo estreitamente ligado e, tal objetivo, só se tornou possível com o fortalecimento do sentimento de culpa. O pai primevo ao ser assassinado pelos irmãos em bando remonta tais indivíduos ao remorso, que é resultado da ambivalência primordial de sentimentos para com o pai. Satisfeito o ódio, o amor vem para primeiro plano, é criado um supereu pela identificação com esse pai, sendo dado a ele o poder paterno como punição ao ato, tentando fazer com que tal não se repetisse. Para Freud, portanto, duas coisas ficam claras: o papel desempenhado pelo amor na origem da consciência (renúncia aos instintos) e a fatal inevitabilidade do sentimento de culpa.

Feita tal consideração, no final do capitulo VII Freud diz algo que, a meu ver, nos ajuda a entender a enunciação não existe relação sexual: “Esse conflito é posto em ação tão logo os homens se defrontam com a tarefa de viverem juntos. Enquanto a comunidade não assumir outra forma que não seja a da família, o conflito está fadado a se expressar no complexo edipiano, a estabelecer a consciência e a criar o primeiro sentimento de culpa.” (FREUD, 1929, p.135). Sendo assim, na impossibilidade da relação sexual, faz-se civilização.

Pra Lacan, Freud enuncia uma verdade velada, obscura que se enuncia a partir de uma relação sexual que só se sustenta pela composição entre gozo e semblante que se chama castração. O neurótico possui o temor da castração marcadamente acentuado em seu discurso, fazendo com que ele a evite. A castração permanece enigmática, pois, só temos acesso a ela pelo temor do neurótico.

O falo é uma descoberta central, ou redescoberta, sendo este retomado como semblante desvelado nos mistérios, como nos diz Lacan. “Com efeito, é precisamente com o semblante do falo que se relaciona o ponto pivô, o centro de tudo que se pode ordenar e conter do gozo sexual.” (p.158). O que caracteriza o falo, portanto, não é a falta e sim ser aquilo de que não sai nenhuma palavra, ou seja, não remete a nenhuma conotação, ou, nenhum nome que designa, junto com o sujeito, um atributo.

Lacan faz distinção entre sentido e significação Sinn e Bedeutung. O que dá sentido é o Sinn, a conotação em lingüística e, o que mesmo sem dar nenhum sentido, continua a ser a mesma coisa, é o Bedeutung, a denotação, sendo a coisa em si mesma. Toda função emparelhada na linguagem, é uma Bedeutung, e só existe uma die Bedeutung dês Phallus. O falo é um designador rígido, aquilo que indica a coisa em si mesma, sem nenhuma referência, sem nenhum sentido agregado, embora possa ser um Sinn, um sentido, como no exemplo de autor de Waverly e Sir Walter Scot, sendo este último a Bedeutung, o Nome-próprio. Sendo o falo o nome, ele é aquilo que chama e chama a falar, com a vantagem de que podemos chamá-lo loucamente que ele continuará a não dizer nada.

Assim como o autor de Waverly, sendo sentido, substitui uma Bedeutung, Sir Walter Scott, o Nome-do-Pai, é o significante mestre do discurso analista. E o que é um pai? Para a experiência analítica ele é um referencial. A ele se refere alguma coisa. Para Lacan, o mito de Édipo não é um reflexo patriarcal. “Ele nos evidencia por onde a castração poderia ser tomada por uma abordagem lógica, e de um modo que eu designaria como numeral. O pai é não apenas castrado, mas castrado justamente a ponto de ser apenas um numero.” (p.162). Lacan nos lembra que não há apenas o algarismo (número), há um número (nombre). A mãe por sua vez é inumerável, pois não se tem duvidas sobre quem seja a mãe, não há ponto de partida.

Lacan diz também da importância absolutamente necessária do zero a qualquer referencial cronológico natural. “E assim compreenderemos o que significa o assassinato do pai.” (p.164). É curioso, nos diz Lacan, que o assassinato do pai pelo filho deliberadamente, não apareça em lugar algum, nem mesmo no teatro grego. E é justamente por este assassinato que Freud elaborou a reusa da castração em virtude da histérica. Não seria o assassinato do pai um substituto da castração recusada? Se o pai é alguma coisa, ele é a significação do falo, nesse sentido, o assassinato do Pai se relaciona com uma Bedeutung, a do falo e por isso se reduz a zero. Portanto, aquilo que põe do lado do pai o gozo original, não deixa de corresponder uma evitação equivalente da castração. Mas o pai é morto, ele nunca existiu, a não ser enquanto Nome.

Por fim, Lacan nos lembra da segunda tópica freudiana e a importante elaboração do supereu. Ele se origina nesse Pai original, neste apelo ao gozo puro, a não castração. Ao final do Édipo, é esse pai internalizado que dirá ao supereu o que fazer e, tal fazer, estará na ordem do impossível, a qual seja Goze! É justamente por amor que o obstáculo ao gozo se instalará, tornando a relação sexual na ordem do impossível.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ata dia 24/09

por Marcone Ferreira

Contextualização:
Freud vem da tradição do romantismo alemão do final do século XIX, por isso o simbolismo empregado. Nietsche é outro representante desse romantismo. O texto é denso, pessimista, com características de um período guerras.
Alemanha se unificando, isso que pode se chamar de psicose de massa. Também presente na religião. Impulso para agressão que é domado. Enquanto Freud é um “sedutor”, Lacan é “barra”, necessitando de um movimento forte para compreensão.

Consideração da possibilidade de visão não pessimista do texto. Convite ao realismo.

Causas do mal-estar?
Por que falar do amor? Porque as outras são impossíveis. (1)

Nós temos um gene da maldade?
Entrada na linguagem que já produz o mal-estar. O que traz o mal-estar é a entrada na linguagem e o rompimento com a natureza.
Essa agressão não é inata. Por que?
A maioria acha que o texto sugere que é.

Chamada para leitura do termo “instinto” como “pulsão”.

Inclinação da agressão como pulsão de morte. Ela é originária. De onde vem? Das relações/relacionamentos sexuais. Desde tenra idade a criança estabelece relação onde não é tudo permitido. As relações não são benévolas. É uma relação ambivalente. A maneira como ela se estabelece inscreve a agressividade.
A mãe é referência agressiva. Há uma interdição ao desejo da criança.
Por que pulsional? Porque cada um responde de um modo. É uma posição única, pessoal. (2)

Relembrando, relações sexuais não têm, necessariamente, que ser sexuais. São relações sociais onde se obtém prazer com o corpo do outro.

Seriam as mulheres fontes de mal-estar?
Fora a misoginia freudiana, o que representam as mulheres nesse texto?
Resgate/recuperação do amor, demanda de amor. No texto, Eros. Ela faria amálgama entre sujeito/objeto. Mas de que se alimenta a civilização? Esse Eros na verdade seria carcomido. Amor inibido em sua finalidade
O importante é que haverá conflito: se retirada energia/libido algo acontecerá.
Invés de caminhar ao Eros platônico, Eros “verdade”, a civilização se voltará contra si mesma.
A agressividade tem sentido anal. Anal-sádica (anal-primária). Constitui a base para as relações das pessoas.

Crítica à sociedade européia. Como uma sociedade tão avançada pode fazer guerra. Freud marcado pela sua história.

“Vida sexual do homem involuindo” (3). Natureza própria de uma função que não é fisiológica. Algo próprio da constituição nos negaria a felicidade plena. Anúncio da função do superego, do mecanismo/dispositivo civilizatório do superego.
Na relação com o outro é que existe possibilidade de felicidade. Ele próprio desconstrói o argumento.
A sublimação, os traços anal-sádicos e a renúncia pulsional estão dados. Estamos aqui trabalhando. O trabalho não é sublimação, mas é necessário. Se sei que é ilusão, como continuar vivendo?. Não há saída?
Há muitos caminhos, mas nenhum com segurança.
Ele enfatizou a religião como aposta felicidade. Outra possibilidade a ciência.

Mas não vivemos excesso tudo? Quando ele fala Ioga, não a temos como saída pronta?
Não temos maneiras infladas de felicidade?
Hoje se compram kits de felicidade. Esgotamento das possibilidades.
“Pensar Freud como pensador da desilusão é uma ilusão”.
Faça sua verdade valer como contraponto a algumas possibilidades de lidar com a desilusão.
Possibilidade de aprender com as desgraças não seria dar caráter muito humanista?
Método de felicidade: as ilusões.

Não há algo no coração que poderia surgir? O homem possui um gene da bondade?

A natureza, corpos, relações: um certo controle existe na natureza.

Aeroporto, corpo, relações, a sociedade evolui?
Como pensar a natureza se estou nela, a defendê-la, e ela está contra mim?
Eu querer salvar a natureza é uma saída narcísica pelo espetáculo?

Alteração da posição quadrúpede do homem incentivando a diferença (possibilidade de ver a distância). O excesso do ver como informação que cerceia a própria visão. Exemplo beleza.
Esquizo do olho e do olhar. Se hoje tudo pode ser visto, não falta o que não pode ser visto.
Demarcação de uma ética do nosso tempo: mais que uma ética é o uso que dela se faz, remontando a virgindade como espetáculo.

A ilusão não é uma condição para estarmos em civilização? Só existiria civilização pagando esse preço. O homem se inventa e se toma como objeto e falta o significante exato, ele se perde na busca e/ou alcança uma resposta mínima na ilusão. O mal-estar como efeito dessa ilusão. O objeto do fantasma como o que movimenta o homem.

Ilusão como constituinte fundamental da civilização: analogia com a estruturação da neurose. “Sendo barrado, recalcado, não restaria ao sujeito neurótico a fantasia/ilusão?”.

Notas:

O agrupamento em blocos foi uma tentativa de dar coerência às discussões que surgiram em sala. Em alguns momentos houve ruptura de uma linha de raciocínio em detrimento de outra proposta.
(1) – referência às causas de infelicidade: nosso corpo, mundo externo e relações com o outro. Essa última como fonte privilegiada de sofrimento.
(2) – referência ao movimento característico da pulsão. Desloca-se visando satisfação.
(3) – aos que fizeram a leitura do texto a partir do arquivo eletrônico, há uma nota de rodapé de mais de uma página e que aponta direções importantes na leitura desse trecho.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Como se faz corpo?

Panópticos, abaixo segue o link para o texto de Maria Aparecida de Andrade Novaes

"Como se faz corpo? Considerações sobre o ideal em Freud e Lacan"

citado pela Luciana no último encontro.

http://www.editoraescuta.com.br/pulsional/182_04.pdf

sábado, 25 de abril de 2009

Reflexões sobre "Psicologia de Grupo e Análise do Ego (1921)"

Gustavo Martins
Em primeiro lugar, parto da suposição de que a escola pode ser considerada como um Grupo Artificial. Na definição de Freud, este tipo de grupo é extremamente duradouro e organizado, o que o difere das massas e grupos menores, de caráter transitório.

Em um grupo artificial, prevalece a “ilusão de que há um cabeça (...) que ama todos os indivíduos do grupo de forma igual” (p.105). Além disso, “cada indivíduo está ligado por laços libidinais por um lado ao líder (...) e por outro aos demais membros do grupo” (p.107). Freud considera que há nos grupos artificiais uma “remodelação idealística do estado de coisas da horda primeva” (p.135), lembrando que “o pai primevo é o ideal do grupo, que dirige o ego no lugar do ideal do ego”(p.138).

Embora Freud tenha dedicado o texto ao estudo de grupos com líder, não deixou de salientar o interesse de pesquisar a existência de outros em que não o tenha e se, nestes casos, “uma idéia, uma abstração, não pode tomar lugar do líder (...) e se uma tendência comum, um desejo, em que certo número de pessoas tenha uma parte, não poderá, da mesma maneira, servir de sucedâneo” (p.111).

Questiono, em primeiro lugar, se na escola tal substituto fundamental do líder não seria o conhecimento, ou, em sentido mais amplo, a educação. Em segundo lugar, este líder abstrato não se corporifica nos professores? Aqueles que, detentores do conhecimento, também o são do poder? Os mestres que, portanto, situam-se – mesmo que de maneira limitada – como um pai primevo? Ocupariam eles o lugar de quem interdita, por um lado, mas que ama igualmente os alunos-filhos, por outro? Não seriam, pois, os professores, os objetos postos como ideal do ego?

Se pudermos admitir alguma coerência nesta idéia, outras questões incidirão sobre o funcionamento de certos grupos em escolas que acompanho no dia a dia. Em linhas gerais, presencio em escolas públicas um mal-estar que aparece nos discursos de professores e alunos. De um lado, a desmotivação, queixa quanto condições de trabalho, falta de capacitação e dificuldade em lidar com os alunos e as ‘realidades’ que trazem. De outro, a recusa pelo ambiente escolar proposto (ou imposto?) que se desdobra no não aprendizado, transgressão, evasão, etc.

Outras questões: - A educação, ou conhecimento, líder abstrato do grupo, deixou de existir ou cedeu o lugar para outro ideal? - a corporificação do ideal do ego – professor – não consegue mais sustentar esta posição? - Como se dão as trocas libidinais que outrora se configurariam na fórmula: saber e poder do professor que ama os alunos e os une neste amor? – Onde os alunos encontram laços identificatórios mais interessantes, tanto no que diz respeito a um líder quanto em relação aos pares do grupo?

Devo admitir, obviamente, que minhas respostas são um tanto quanto limitadas e transitórias. No entanto, o próprio texto de Freud oferece alguns elementos que contribuem para a reflexão.
“Cada indivíduo, portanto, partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça, classe, credo, nacionalidade – podendo também elevar-se sobre elas, na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. Essas formações grupais estáveis e duradouras, com seus efeitos constantes e uniformes, são menos notáveis para um observador que os grupos rapidamente formados e transitórios” (p.139).

Na sociedade contemporânea, são intermináveis as possibilidades de transitar por uma pluralidade de grupos efêmeros – ainda que o sujeito se mantenha identificado em grupos mais duradouros. Contudo, como ressalta Freud, “é exatamente nesses ruidosos grupos efêmeros, superpostos uns aos outros, por assim dizer, que encontramos o prodígio do desaparecimento completo, embora apenas temporário, exatamente daquilo que identificamos como aquisições individuais. Interpretamos esse prodígio com a significação de que o indivíduo abandona seu ideal do ego e o substitui pelo ideal do grupo, tal como é corporificado no líder” (p.139).

Poderíamos pensar aqui que grupos transitórios vêm substituindo a escola como modelo identificatório? Os subgrupos que surgem dentro e fora das escolas seriam mais atrativos e ofereceriam outro tipo de apaziguamento para os conflitos do ego que o ideal da escola não consegue sustentar e ao qual não dá conta de se opor?

Ora, Freud diz que “o ideal do ego abrange a soma de todas as limitações a que o ego deve aquiescer e, por essa razão, a revogação do ideal constituiria necessariamente um magnífico festival para o ego, que mais uma vez poderia então sentir-se satisfeito consigo próprio” (p.141).

Assim como Freud reconhece ter “injustamente enfatizado a relação com o líder e mantido demais em segundo plano o outro fator da sugestão mútua”, restarão ainda questões a se pensar acerca dos laços identificatórios entre os membros do grupo escolar.
REFERÊNCIA:
FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921). Rio de Janeiro: Imago, 1996. P.79 – 154.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Reflexões sobre "Psicologia de Grupo e Análise do Ego (1921)"

Por: Raquel Braga

É interessante começar considerando que este texto foi escrito por Freud em 1921, época do pós Primeira Guerra Mundial em que a necessidade de líderes, salvadores da pátria era iminente. Nesse texto, Freud se concentra, basicamente, na teoria do eu e da identificação. Nessa época Freud já havia escrito copiosa literatura sobre a disciplina que ele fundara sobre o nome psicanálise. Havia também a existência de um grupo de diferentes intelectuais que se reuniam na casa dele para discutir assuntos relacionados com ao tema. Esse grupo teve inicio em 1902 e, em 1910, foi transferido da casa de Freud para o Colégio de Doutores. De 1902 até 1906 não há registro das primeiras atas, somente as que foram realizadas depois disso. Acredito que a existência desse grupo tenha influenciado de alguma forma os escritos de Freud sobre o texto em questão dada as peculiares dificuldades encontradas por ele e pelos membros que o constituía, especialmente no que tange aos assuntos relacionados com a teoria, a técnica da psicanálise e o ego dos envolvidos.

Quais seriam as causas da diferença entre os indivíduos em grupo e os indivíduos tomados isoladamente? De onde vem esse poder que os grupos têm de sugestionar os indivíduos, de fazer com que se identifiquem e que reajam de maneira diferente da que se estivessem sozinhos? Viria do líder, que é colocado no lugar de ideal do ego? E aqueles que não se identificam? Por que isso acontece? Há um instinto social? Uma identificação com a ‘mente’ de certos povos primitivos? É necessário ressaltar que o tipo de identificação primordial que Freud nos coloca e que depois retoma em 1923, diz de uma identificação por parte dos meninos, com o pai da pré-história, é essa a primeira identificação, é a primordial. Mas e nos casos das meninas, com quem elas se identificam? Essa pergunta nos é deixada por Freud sem resposta. Podemos pensar em algo? Freud nos coloca essas questões ao longo de seu texto e, na medida do possível, tenta responde-las.

Macdougall sugere ‘o principio da indução direta da emoção por via da reação simpática primitiva’, é como se houvesse uma espécie de contágio do individuo pelo grupo e quanto maior e mais intensa é essa reação grupal, mais ela contagia o individuo. Podemos observar isso nas salas de aula? Qual a influencia que o grupo de alunos tem em cada um, separadamente e em relação ao professor? Por que o contágio não se verifica em todo o grupo, por que há formas de ‘resistência’?

Freud retorna várias vezes no texto, a especial sugestionabilidade dos grupos, pois, se há prestigio no grupo, seja por parte de um líder ou por parte de seus componentes ele existe somente devido a sua capacidade de evocar a sugestão. Há alguma forma de evocar sugestão em um grupo que seja mais eficiente que outras? Em sala de aula, por exemplo, como usar dessa especial sugestionabilidade para ‘contagiar’ os alunos? E por que eles permitiriam ser sugestionados? Por estarem unidos por laços libidinais? Por estarem submetido a uma suposta autoridade? Qual seria então, a natureza do laço libidinal que uni os estudantes ao professor? Há alternativa possível?

“O homem é um animal de horda, uma criatura individual numa horda conduzida por um chefe.” Freud utiliza desse argumento e diz ser a psicologia social tão antiga quanto à psicologia individual, porque desde o principio, houve dois tipos de psicologia, a dos membros individuais do grupo e a do pai, chefe ou líder. “O pai primevo ao impedir os filhos de satisfazer seus impulsos diretamente sexuais, os forçará por assim dizer, à psicologia de grupo. Seu ciúmes e intolerância sexual tornaram-se em ultima analise, as causas da psicologia de grupo.”

Podemos então pensar, que é a desigualdade dos privilégios entre membros do grupo e o líder que leva a um desentendimento das partes? “Você é aluno e eu sou professor e, por isso você deve me respeitar”, parece ser frases constantes em sala. Há alternativa para um melhor entendimento? Por onde ela teria que passar? Como trabalhar essa ‘desigualdade’ dentro de sala de aula? Como legitimar esse lugar sem ocupá-lo? O que os grupos reivindicam seria o acesso a um ideal que o líder parece ter posse, no entanto, o que me parece é que esse ideal já não é mais tão cobiçado pelos alunos e se o é, as formas de demonstrar isso mudaram. Há explicação para até hoje nós, seres humanos, desejarmos ser governados, como se tivesse paixão pela autoridade? Que autoridade é essa? Seria uma espécie de substituto dos primeiros objetos de identificação ou uma nostalgia do tempo em que o eu e o objeto eram um só? Quais outras formas de relações são possíveis? Há como dessexualizá-la e mesmo assim mantê-la?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ata de encontro

Dia 26/03/2009 - das 16h às 18h Sala 03 da Pós-Graduação, FaE/UFMG

“PSICOLOGIA DE GRUPO E ANÁLISE DO EGO", obras completas de Sigmund Freud, VOL. XVIII, 1921

Resumo:
A coordenação do encontro ficou por conta de Marcelo Ricardo Pereira e o registro por responsabilidade de Márcio Boaventura Jr. Em um primeiro momento foi solicitada uma apresentação dos membros presentes, uma vez que reiniciada as atividades do Panóptico em 2009 o grupo de estudo aumentou relativamente.

Em seguida, o coordenador apresentou o histórico do Grupo Panóptico, bem como sua finalidade e objetivada neste novo ciclo, qual seja, estudar a obra Freudiana relativa ao vínculo social, bem como as contribuições lacanianas à mesma.

O início dos estudos deu-se com Marcelo Ricardo trazendo elementos como:
- Acentuar a preocupação/tese de Freud ao escrever o texto (1921).
- Europa devastada pela 1ª Guerra Mundial
- Esse cenário instiga o surgimento de “salvadores da pátria”, fortalece grupos, etc.
- o texto freudiano estudado aborda a questão social e o comportamento humano.
- o que aconteceu com a Europa civilizada que em seu ápice do progresso humano sucumbe a guerra. Tem algo no humano que fustiga isso?
- Como se formam os grupos (teses)?
- Declínio da religião e da ciência (uma vez que ambas não foram capazes de salvar a humanidade de seu destino). Período de desilusão com o mundo moderno.

Capítulo 1
Psicologia Social e psicologia Individual
A segunda emerge da primeira
- instinto gregário ou de grupo.

Capítulo 2
Lebon
Capítulo 3
Grupos organizados
Quais as razões para ele acontecer.

Capítulo 4
Introduz sugestão e libido
Sugestão = enigma, entendendo-a pela libido.
Tentativa de tirar a psicanálise do pansexualismo
Amor e linguagem.

Capítulo 5
Dissolução da idéia de líder materializado.
Pânico: no desampara quando o líder não se apresenta.

Capítulo 6
A simples união de pessoas não faz grupo, é preciso ato!
Amor homossexual inibido em sua sexualidade.
Homogeneidade leva à pulsão de morte.

Capítulo 7
Identificação
Laço extremamente remoto, parcial, limitado e dependente do traço do outro.
Édipo, regressão (escolha de objeto) e contágio.
Ideal de eu a partir do signo do outro, ao fazer isso nos dividimos e criamos um tirano que nos vigia.

Capítulo 8
Estar amando e hipnose
Grupo = hipnose
Estar amando é um excesso de sexualização
Grupo ocorre sublimação da sexualidade

Capítulo 9
Põe em questão a fórmula anterior
Não existe instinto gregário, precisamos ser lembrados diariamente do pacto social.

Capítulo 10
Horda primeva para reforçar o grupo
Hipnose é uma atualização da horda
Abandonar a idéia do Eu x genealidade do líder

Debates:
A violência é algo da classe social?
O que a mídia produz dá forma ao meu pensa?
Não é o crime que me intedita e sim a própria linguagem.
Interditar o fazer e permitir o dizer.
Onde se orientar em um mundo não inteditado?

Esgotado o tempo do encontro, ficou decidido que o próximo se dará no dia 23/04/2009, no mesmo local e horário. Raquel e Gustavo produziram reflexões em forma de texto para aquecer o próximo debate, ainda sobre o mesmo tema.Sem mais a registrar. Encontro encerrado.